A Raposa e as Uvas

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Para quando você já nem lembra se ainda queria.

O que você parou de querer sem nunca ter dito em voz alta que queria?

Uma raposa tenta repetidas vezes alcançar um cacho até finalmente ir embora.

Frame do filme Antes do primeiro salto

A história

A fábula é atribuída a Esopo e circula há mais de dois mil e quinhentos anos.

Uma raposa passa por uma parreira e vê cachos de uva pendurados no alto.

Ela pula. Não alcança.

Recua alguns passos, toma impulso e pula de novo. Não alcança.

Tenta mais vezes, de ângulos diferentes, até cansar.

Então vai embora, e diz para si mesma que aquelas uvas estavam verdes.

Nas versões antigas, a fábula termina exatamente aí, com a frase dita em voz alta para ninguém.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

Antes do primeiro salto · 1:10

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

Antes do primeiro salto

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Perguntei a um amigo se ele ainda pensava em voltar a morar fora.

Ele riu antes de responder.

Aquilo era coisa de outra época.

Foi rápido demais. A pergunta ainda estava no ar quando a resposta já tinha chegado. Inteira. Pronta. Do jeito que ficam as frases que a gente repetiu muitas vezes.

Não achei que fosse mentira.

Achei que fosse uma frase que já tinha sido útil.

Na fábula da raposa, a parte conhecida é o fim.

Ela vê um cacho alto numa parreira. A boca enche de água. Salta. Não alcança. Salta outra vez. Depois outra. Até o corpo cansar.

Então vai embora dizendo que as uvas estavam verdes.

A leitura de sempre é que ela ficou ressentida. Como não conseguiu, fingiu que nunca quis.

Desta vez fiquei presa no começo.

Antes da desculpa, houve desejo. A boca encheu de água. Ela quis de verdade, antes que existisse qualquer justificativa.

E a uva já estava perdida havia alguns saltos.

O que a raposa abandona no fim não é a fruta.

É o direito de continuar dizendo que ainda a queria.

Isso faz sentido. Não dá para atravessar a vida carregando, todos os dias, a lista completa do que a gente quis e não teve.

Em algum momento, a cabeça encontra um jeito de aliviar o peso.

Nem era tão bom assim.

Hoje vejo que foi melhor.

Eu já nem queria mais.

O problema é que algumas histórias continuam vivendo depois que deixam de ser necessárias.

A gente não conta essas frases só para si. Conta para os amigos. Para a família. Para quem pergunta.

E as pessoas acreditam. Precisam acreditar. Foi você quem contou.

Então param de perguntar. Param de trazer o assunto. Param de chamar você para aquilo.

Achando que estão protegendo uma ferida. Fazem isso por cuidado.

E, sem perceber, a mentira muda de lugar.

Ela deixa de morar só dentro da gente. Passa a morar na vida inteira.

Anos depois, ninguém mais sabe o que você queria.

Não porque esconderam de você.

Porque você mesmo ensinou o mundo a esquecer.

E um dia acontece uma coisa curiosa.

Você passa por uma rua. Escuta uma música. Alguém comenta um assunto qualquer.

E, por um instante, antes que a explicação chegue,

a boca enche de água outra vez.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.