Buda

TradiçõesMudarEscolher

Para quando você não sabe se está desistindo ou finalmente parando.

Por que incomoda quando alguém decide parar?

Depois de anos levando o corpo ao limite, Siddhartha interrompe o jejum.

Frame do filme A tigela

A história

Siddhartha Gautama nasceu príncipe, no sopé do Himalaia, há cerca de dois mil e quinhentos anos. Segundo a tradição, seu pai ordenou que ele crescesse dentro do palácio, cercado de tudo o que fosse agradável, e que nada de doloroso chegasse até seus olhos.

Assim viveu até os vinte e nove anos. Casou, teve um filho, e conheceu apenas o que lhe deixaram conhecer.

Foi quando saiu pela primeira vez que viu um velho, um doente e um morto. Depois viu um asceta, que havia deixado tudo para procurar uma resposta. Na mesma noite, Siddhartha abandonou o palácio, a mulher, o filho e o nome que tinha. Cortou os cabelos e trocou as roupas por trapos.

Procurou os mestres mais respeitados da época e aprendeu com eles tudo o que sabiam ensinar. Nada bastou. Então escolheu o caminho mais severo que existia.

Durante seis anos praticou o ascetismo extremo nas florestas de Uruvela. Cinco outros ascetas o acompanhavam. Ele comia poucos grãos por dia, expunha o corpo ao sol e ao frio, prendia a respiração até desmaiar. Emagreceu a ponto de, ao tocar a barriga, sentir a espinha. Nenhum deles chegara tão longe.

Quase morreu.

Foi então que uma jovem chamada Sujata lhe ofereceu uma tigela de arroz cozido no leite. Ele aceitou e comeu.

Os cinco ascetas viram aquilo. Entenderam que ele havia desistido, que voltara a ceder ao conforto do corpo, e partiram sem ele.

Siddhartha permaneceu. Banhou-se no rio, sentou-se sob uma figueira e resolveu não se levantar dali até compreender. Naquela noite alcançou o que a tradição chama de despertar.

Semanas depois, foi procurar os cinco que haviam partido. Foi a eles que falou pela primeira vez. Apresentou o que ficou conhecido como Caminho do Meio: nem a vida de prazeres que deixara no palácio, nem a mortificação dos seis anos na floresta.

Os cinco tornaram-se seus primeiros discípulos.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

A tigela · 1:02

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

A tigela

Ouvir a carta

0:00 / 0:00

Alguém contou numa conversa que ia diminuir o ritmo no trabalho.

Falou com cuidado, quase pedindo licença.

E a minha primeira reação, antes de qualquer coisa que eu dissesse em voz alta, não foi alívio por ela.

Foi um incômodo.

Só fui entender de onde ele vinha quando me lembrei de uma imagem da vida de Buda que quase nunca aparece.

Não é a figueira.

Não é a iluminação.

É uma tigela.

Durante seis anos, Siddhartha levou o próprio corpo ao limite. Comia tão pouco que os textos antigos dizem que, ao tocar a barriga, sentia a coluna do outro lado.

Cinco homens caminhavam com ele. Admiravam sua disciplina. Achavam que estavam diante de alguém cada vez mais próximo da verdade.

Então ele voltou a comer.

E foi nesse dia que ficou sozinho.

Os cinco foram embora.

Não partiram quando ele estava morrendo.

Partiram quando ele decidiu parar.

Durante muito tempo achei que essa cena falava da incapacidade deles de compreender.

Depois comecei a olhar para ela de outro jeito.

Os cinco não estavam olhando de fora.

Estavam fazendo exatamente a mesma coisa.

Tinham o mesmo corpo consumido. Os mesmos anos. A mesma fome.

Enquanto Siddhartha aguentava, tudo aquilo fazia sentido. Era caminho. Era disciplina. Era prova de que valia a pena.

Mas, se ele podia parar...

O que aqueles seis anos diziam sobre os seis anos deles?

Talvez tenha sido isso que a tigela colocou sobre a mesa.

Não apenas comida. Uma possibilidade.

E algumas possibilidades são difíceis de suportar.

Fico pensando em quantas conversas da minha vida foram assim sem que eu percebesse.

Alguém diz que vai trabalhar menos, e a mesa fica estranha.

Alguém conta que saiu de uma relação difícil, e a resposta demora.

Alguém decide que não vai mais aguentar tudo em silêncio, e as pessoas ao redor parecem mais desconfortáveis do que felizes.

Não porque sejam más.

Mas porque cada uma dessas escolhas deixa uma pergunta suspensa no ar.

E se eu também pudesse?

E se eu também pudesse parar?

É uma pergunta cara demais para aparecer numa mesa de jantar.

Então a gente muda de assunto. Ou chama de fraqueza.

Às vezes é mais fácil.

Sobre ela eu não disse nada disso.

Falei que era uma boa ideia.

E era.

Só depois percebi que aquele incômodo nunca foi sobre ela.

Ela não tinha desistido de nada.

Ela só tinha parado antes de mim.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.