O Sol e o Vento

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Para quando quanto mais tentam te convencer, mais você se agarra.

Alguém já tentou te convencer e conseguiu o contrário?

O vento e o sol apostam quem consegue fazer um viajante tirar o casaco.

Frame do filme O casaco

A história

A fábula é atribuída a Esopo.

O vento norte e o sol discutiam qual dos dois era mais forte.

Viram um viajante na estrada, de casaco, e fizeram uma aposta: venceria aquele que conseguisse fazê-lo tirar o casaco.

O vento começou. Soprou com toda a força que tinha, levantou poeira, dobrou os galhos das árvores, empurrou o homem para trás.

Quanto mais soprava, mais o homem apertava o casaco contra o corpo. Fechou os botões que estavam abertos, ergueu a gola, cruzou os braços por cima.

O vento soprou até cansar, e desistiu.

Então o sol saiu de trás das nuvens.

Não fez nada além de brilhar. Aqueceu a estrada devagar, e o homem foi afrouxando a gola. Aqueceu mais, e ele abriu os botões.

Um pouco depois, o homem tirou o casaco sozinho e o pendurou no braço.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

O casaco · 1:07

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

O casaco

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Uma amiga me contou que ia voltar com uma pessoa que já tinha feito ela sofrer.

Eu disse o que qualquer um diria. Falei do que tinha acontecido antes. Lembrei coisas que ela mesma tinha me contado, chorando, alguns meses atrás.

E ela defendeu.

Defendeu com uma firmeza que eu nunca tinha visto nela enquanto estava sofrendo.

Quanto mais eu falava, mais ela encontrava razões.

Que agora era diferente. Que eu não conhecia tudo. Que as coisas não eram tão simples assim.

Saí daquela conversa com uma sensação estranha.

Eu tinha tentado fazê-la enxergar alguma coisa e, de algum jeito, ela parecia mais convencida do que antes.

Fiquei nisso alguns dias. Em como uma pessoa pode começar uma conversa cheia de dúvidas e terminar defendendo exatamente aquilo de que duvidava.

Até que me lembrei de um casaco.

É uma fábula curta. O vento e o sol discutem sobre quem é mais forte. Veem um viajante de casaco e fazem uma aposta: vence quem conseguir fazê-lo tirar.

O vento vai primeiro.

Sopra. O homem segura o casaco. Sopra mais forte. O homem aperta a gola.

Quanto mais o vento tenta arrancar, mais o viajante se fecha.

Depois vem o sol.

Não pede nada. Só esquenta.

E, algum tempo depois, o homem tira o casaco sozinho.

A moral costuma parar por aí: a gentileza consegue o que a força não consegue.

Mas naquela semana eu não conseguia parar de pensar no casaco.

Talvez o mais interessante não fosse o vento. Nem o sol.

Era o casaco.

Porque enquanto o vento soprava, o casaco estava certo.

Era exatamente para aquilo que ele existia. Quanto mais frio fazia, mais necessário ele se tornava.

Talvez algumas certezas funcionem assim.

Nem sempre defendemos alguma coisa porque temos tanta certeza dela.

Às vezes defendemos porque alguém começou a puxar.

Uma escolha. Uma relação. Uma ideia que já estava começando a incomodar.

Talvez a dúvida estivesse ali antes da conversa.

Mas, quando alguém ataca, alguma coisa muda.

Já não estamos mais examinando a escolha. Estamos nos defendendo.

E, para nos defender, acabamos defendendo junto aquilo que estava atrás de nós.

Acho que foi isso que aconteceu naquela conversa.

Eu estava falando sobre a pessoa com quem ela queria voltar. Ela talvez tenha começado respondendo sobre isso.

Mas, em algum momento, já não estava mais defendendo a relação.

Estava defendendo a própria capacidade de escolher.

E quanto mais eu tentava mostrar que ela estava errada, mais razões ela precisava encontrar para provar que não estava.

Certas coisas só conseguimos largar quando ninguém está tentando arrancá-las da nossa mão.

Não porque de repente ficaram menos importantes.

Mas porque, sem alguém puxando do outro lado, finalmente podemos sentir o peso delas.

Penso nela de vez em quando.

Não sei se alguma coisa que eu disse ficou.

Talvez tenha ficado. Mas provavelmente não naquele dia.

Naquele dia eu fui o vento.

E ela ainda precisava do casaco.

A próxima carta

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