A Selkie

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Para quando a vida está boa e ainda assim falta alguma coisa.

O que você responde quando perguntam do que você gosta?

Uma criatura do mar passa anos vivendo em terra sem poder voltar para a água.

Frame do filme O silêncio das perguntas que nunca fizemos

A história

Nas ilhas da Escócia, da Irlanda e das Faroé, conta-se a lenda das selkies: criaturas que vivem como focas no mar e, em terra, tiram a pele para assumir forma humana.

Em muitas versões, um homem caminha pela praia e vê uma delas dançando na areia, sem a pele. Ele pega a pele e esconde.

Sem ela, a selkie não pode voltar ao mar. Fica.

Casa com o homem, tem filhos, aprende a viver em terra firme. Passa os anos naquela casa. Em algumas versões é descrita como uma boa esposa e uma boa mãe.

Mas costuma ser vista olhando para o mar.

Um dia, um dos filhos encontra a pele guardada num sótão, num baú, embaixo do telhado, dependendo da versão. Leva até ela sem entender o que é.

Ela pega a pele, desce até a água e volta a ser foca.

Algumas versões dizem que ela nunca mais aparece. Outras dizem que ela volta às vezes, ao largo, e fica olhando os filhos brincarem na praia.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

O silêncio das perguntas que nunca fizemos · 1:17

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

O silêncio das perguntas que nunca fizemos

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Num jantar desses alguém me perguntou do que eu gosto.

Não era uma pergunta difícil. Era conversa de mesa, do tipo que se responde entre um prato e outro.

Eu disse o nome de duas ou três coisas que faço. Depois fiquei quieta, porque nenhuma delas era verdade exatamente.

Eram coisas que ocupam meus dias. Não era bem o que a pessoa tinha perguntado.

Foi essa a semana em que li sobre as selkies.

Elas vivem como focas no mar. Em terra, tiram a pele e assumem forma humana. Um homem encontra essa pele e a esconde, e sem ela a selkie não consegue voltar.

Então ela fica.

Casa. Tem filhos. Constrói uma vida inteira em terra firme.

Nada disso é mentira. Nada disso é pouco.

E, mesmo assim, todos os dias, olha para o mar.

Fiquei um tempo naquele olhar. No começo achei que fosse saudade, e saudade é uma coisa que a gente sabe nomear.

Depois percebi que o que me impressionava era outra coisa.

Não é que ela volte para o mar no fim.

É que ela tenha conseguido viver tantos anos sem poder voltar.

Ela ama os filhos. Ama a vida que construiu. A lenda não diz em nenhum momento que essa vida era falsa.

E ainda assim existe uma parte dela que nunca deixou de olhar para outro lugar.

As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e é isso que ninguém conta.

Você pode amar o trabalho que tem e sentir falta de alguma coisa.

Pode amar a família que construiu e sentir falta de alguma coisa.

Pode gostar da vida que leva e perceber que existe um pedaço seu que faz muito tempo que não encontra lugar para existir.

Talvez seja por isso que certas perguntas de mesa de jantar incomodem tanto.

Do que você gosta.

O que você faria se pudesse escolher de novo.

Não são perguntas difíceis. Elas só chegam num lugar que faz tempo que ninguém visita.

A selkie volta no dia em que encontra a pele.

A gente quase nunca tem um dia assim. O trabalho continua, os filhos continuam, as contas continuam.

De vez em quando alguém pergunta uma coisa banal no meio de um jantar.

E alguma parte da gente levanta a cabeça.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.