Oxum

TradiçõesMudarPertencer

Para quando te apresentam pela pessoa que você era.

Quando foi a última vez que alguém te apresentou por uma coisa que você não faz mais?

A orixá das águas doces carrega um espelho enquanto vive junto a rios e nascentes.

Frame do filme Água corrente

A história

Oxum é orixá das águas doces, dos rios e das nascentes. No candomblé e na umbanda, cuida do amor, da fertilidade e daquilo que floresce.

É associada ao ouro, ao mel e ao latão. Carrega um abebé, espelho de metal com cabo, e é descrita passando longos períodos diante dele.

Entre os itans, as histórias que contam a vida dos orixás, há um em que os orixás masculinos decidem criar o mundo sem contar com as mulheres. Nada do que fazem dá certo. As chuvas não caem, as sementes não pegam, os partos não vingam. Vão perguntar a Olodumare o que está errado, e ele responde que nada se completa sem Oxum.

Eles voltam e a chamam. Ela aceita. As águas correm de novo.

Oxum é conhecida como a mais bonita, a que se admira no espelho.

O espelho dela é feito de metal. Mas ela vive dentro do rio, e o rosto que se forma na superfície da água é desmanchado pela corrente antes que ela termine de olhar.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

Água corrente · 1:02

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

Água corrente

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Num jantar desses, alguém apresentou uma amiga minha assim:

"Essa é a que pinta."

Ela parou de pintar faz uns três anos.

Sorriu, disse que era um prazer, e a conversa seguiu.

O que ficou comigo não foi o erro.

Foi ela não ter corrigido.

Não pareceu constrangimento nem preguiça. Pareceu outra coisa, mais difícil de nomear, como se corrigir custasse mais do que a frase merecia.

Dias depois lembrei de Oxum.

Contam que ela carrega um espelho, e foi assim que ficou conhecida: a mais bonita, a que gosta de se admirar.

Nunca me interessou a vaidade.

Me interessa o material.

Porque Oxum é dos rios, e o espelho dela é água.

Um espelho de parede faz uma promessa silenciosa. Você sai de casa, volta horas depois, e o rosto continua esperando no mesmo lugar. Mesmo que tenha mudado alguma coisa, existe continuidade. É você de novo.

A água não promete nada disso.

Você se inclina sobre o rio, o rosto aparece um instante e vai embora na corrente.

Quando olha outra vez, já é outra imagem.

Fico pensando se não é assim que a vida acontece.

A gente imagina que muda nos acontecimentos grandes. Um casamento, um filho, uma mudança de cidade, um luto.

Mas na maior parte do tempo muda devagar, sem avisar.

Um dia você encontra uma fotografia antiga e não estranha só o rosto.

Estranha a pessoa.

O que ela queria. As escolhas que fazia. As preocupações que carregava.

Em algum momento, sem barulho, alguém diferente passou a morar aí.

Só que ninguém se inclina sobre a própria água sozinho.

As pessoas que te amam também guardam uma imagem sua, e essa imagem foi feita num dia específico, que às vezes já passou faz tempo.

Sua mãe atende o telefone e fala com alguém de dezenove anos.

Um amigo antigo te apresenta por uma coisa que você não faz mais.

Alguém te dá um presente que teria sido perfeito quatro anos atrás.

Dói de um jeito difícil de explicar, porque não é desatenção.

É excesso de amor num retrato antigo.

E a gente faz exatamente o mesmo.

Tem gente na sua vida que mudou e continua sendo tratada pela versão de antes. O irmão que ainda é o irresponsável da família. A amiga de quem você espera sempre a mesma reação. O pai que talvez tenha ficado mais brando e ninguém em casa reparou.

Estamos todos nos inclinando sobre a água uns dos outros, e quase sempre chegando um pouco atrasados.

Mas ainda tem a minha amiga, calada no jantar.

Ela sabia que não pintava mais.

O que ela não tinha, ali, com a taça na mão e todo mundo olhando, era a outra frase.

Porque corrigir não é só desmentir. É dizer em voz alta quem você é agora, no meio da mesa, com a mesma firmeza com que alguém disse quem você era.

E essa versão quase nunca está pronta na hora.

A antiga tem três anos de acabamento. A nova ainda está molhada.

Então é mais fácil deixar passar.

Você sorri, agradece, e adia.

Só que a frase de quatro anos atrás vai continuar sendo dita por aí, até alguém contar outra.

Talvez seja por isso que gosto dessa imagem de Oxum voltando ao rio.

Não para conferir se continua a mesma.

Para descobrir quem a água devolve naquela manhã.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.