O Velho e o Mar
LiteraturaPerder
Para quando você olha o que sobrou e não sabe fazer a conta.
Como você faz a conta do que valeu a pena?
Depois de dias no mar, um pescador volta para casa com quase nada do peixe que conseguiu capturar.

A história
A novela de Ernest Hemingway foi publicada em 1952.
Santiago é um pescador velho, em Cuba, e está há oitenta e quatro dias sem pescar nada. O menino que o acompanhava desde os cinco anos foi obrigado pelos pais a mudar de barco, porque aquele velho dava azar.
No octogésimo quinto dia, Santiago sai sozinho e vai mais longe que os outros. Um marlim enorme morde a linha ao meio-dia.
O peixe é grande demais para ser puxado. Ele arrasta o barco por dois dias e duas noites. Santiago segura a linha com as mãos em carne viva, dorme aos pedaços, come peixe cru, fala com o marlim.
No terceiro dia, o peixe sobe à superfície e ele consegue arpoá-lo. É maior que o barco. Santiago amarra o marlim ao costado e começa a voltar.
Uma hora depois vem o primeiro tubarão, atraído pelo sangue. Ele mata esse com o arpão e perde o arpão. Vêm outros. Ele luta com a faca amarrada a um remo, depois com o remo, depois com o leme.
Quando chega ao porto, de madrugada, o que está amarrado ao barco é uma espinha, uma cabeça e uma cauda.
Ele sobe até a cabana e dorme. De manhã, os pescadores medem o esqueleto na areia: cinco metros e meio.
O menino o encontra dormindo e chora.
O filme
Um minuto diante de uma parte da história.
O que sobra · 1:17
A carta
Quando essa história encontra uma vida de agora.
O que sobra
Ouvir a carta
Encontrei uma pasta antiga no fundo de uma gaveta.
Dentro dela havia projetos que nunca saíram do papel. Anotações. Ideias. Planilhas. Algumas páginas eu nem lembrava que tinha escrito.
Fechei a pasta pensando numa coisa curiosa.

Quando alguma coisa termina, o olhar vai direto para o que não aconteceu.
Em O Velho e o Mar, o que me pega não é a luta. É o final.
Santiago passa dias sozinho no mar. Enfrenta o cansaço. Consegue pescar o maior peixe da vida. Na volta, os tubarões aparecem.
Quando chega à praia, quase tudo foi embora. Fica apenas o esqueleto.
A história não termina quando ele pega o peixe. Ela continua justamente quando as coisas começam a se perder.
E termina numa cena que eu nunca tinha entendido direito.
Santiago dorme.
E sonha com leões.
Não com o peixe. Não com os tubarões. Nem com o mar que acabou de atravessar.
Com leões que viu numa praia da África quando era menino, muito antes de tudo aquilo.
Se o peixe era a história, por que Hemingway termina falando dos leões?
Os leões não vieram do esforço.
Ele não fez nada para merecer aquela lembrança. Era menino. Estava numa praia. Olhou.
E aquela imagem continuou viva dentro dele por sessenta anos, sem nunca ter servido para absolutamente nada.
Quase tudo o que a gente constrói pode ser disputado.
Tem valor.
E o que tem valor alguém pode levar. Comprar. Estragar. Esquecer de reconhecer.
Ninguém disputa a lembrança de um menino olhando leões.
É a única coisa que nenhum tubarão vem buscar.
Voltei à pasta de projetos. Passei um tempo procurando o que tinha dado certo, como se fosse possível fazer uma conta.
Mas o que ficou daquele fim de tarde não foi nenhuma planilha.
Foi lembrar de uma noite em que escrevi até tarde, sem saber se aquilo ia dar em alguma coisa, enquanto a casa inteira dormia.
Não é resultado. Não dá para mostrar para ninguém.
Santiago volta com um esqueleto.
A aldeia vê o peixe.
Ninguém vê os leões.
A próxima carta
Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.