Moisés

Histórias bíblicasContinuarPerder

Para quando você construiu uma coisa e ninguém soube.

Quem construiu as coisas que você usa sem pensar?

Depois de quarenta anos conduzindo um povo pelo deserto, Moisés chega à fronteira.

Frame do filme A borda

A história

A história atravessa quatro livros da Bíblia hebraica.

Moisés nasce hebreu no Egito, num tempo em que o faraó mandava matar os meninos do seu povo. A mãe o coloca num cesto no rio. A filha do faraó o encontra e o cria como filho. Ele cresce dentro do palácio.

Adulto, vê um egípcio espancando um hebreu, mata o egípcio e foge para o deserto. Vira pastor, casa, tem filhos. Passa quarenta anos assim.

Diante de uma sarça que arde sem se consumir, recebe a ordem de voltar e tirar seu povo do Egito. Argumenta que não sabe falar. Vai mesmo assim.

Enfrenta o faraó, atravessa o mar, e conduz o povo pelo deserto durante quarenta anos. Recebe a lei no Sinai. Julga disputas, aguenta revoltas, enterra uma geração inteira que saiu do Egito e não chegou ao fim do caminho.

Já muito velho, sobe o monte Nebo. Do alto, vê a terra para onde caminhou a vida toda: o vale, o rio, as cidades ao longe.

E é dito a ele que verá a terra com os olhos, mas não vai atravessar.

Ele morre ali. Josué conduz o povo para dentro.

O texto diz que ninguém soube onde ficou o túmulo.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

A borda · 1:10

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

A borda

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Ano passado quebraram a parede do banheiro aqui de casa para trocar um cano.

Atrás do azulejo apareceu uma viga reforçada com uma chapa de metal.

O pedreiro olhou e disse que era antigo. Que alguém tinha feito aquilo antes de fechar a parede.

Moro aqui há anos sem saber que existia.

E só descobri porque um cano estourou.

Quarenta anos é mais do que uma carreira inteira. É mais do que muitos casamentos.

Foi o tempo que Moisés passou conduzindo um povo pelo deserto.

Enfrentou fome. Revolta. Cansaço. Viu gente querendo voltar para o Egito. Viu um povo fabricar outro deus enquanto ele estava na montanha.

E continuou andando.

Até chegar à fronteira.

Então sobe um monte sozinho. Olha. Do outro lado existe um vale verde. É a terra para onde empurrou a vida inteira.

Ele não atravessa.

Fiquei naquele vale por alguns dias.

Porque ele precisava acontecer sem Moisés.

Quem chega precisa poder morar.

Se cada manhã naquele vale começasse lembrando o preço que alguém pagou para abri-lo, ninguém conseguiria simplesmente plantar. Criar filhos. Construir uma casa. Viver.

O esquecimento parece injusto quando a gente olha para quem ficou na montanha.

Mas talvez seja justamente ele que transforme uma conquista em lugar.

A casa onde moro também é assim.

Alguém reforçou uma parede. Outro passou fios. Outro levantou uma viga.

Hoje eu tomo banho ali sem pensar em nenhum deles.

É justamente esse o sinal de que o trabalho deu certo.

Ele deixou de chamar atenção.

Talvez exista um tipo de trabalho cujo maior sucesso seja exatamente esse.

Desaparecer.

Penso menos em Moisés olhando para o vale.

Penso nas pessoas que construíram os lugares onde hoje vivo sem que eu perceba.

Uma avó. Um professor. Alguém cujo nome eu nunca soube.

Nenhum deles vai saber que pensei nisso.

A casa continua de pé.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.